sábado, 19 de outubro de 2013

distrito federal

como viu Leminski

"Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
a vida das pessoas
penetrando nos esquemas
como a tinta sangue
no mata borrão,
crescendo o vermelho gente,
entre pedra e pedra,
pela terra a dentro.
Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
criminoso por estar
fora da quadra permitida.
Sim, Brasília.
Admirei o tempo
que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
Adeus, Cidade.
O erro, claro, não a lei.
Muito me admirastes,
muito te admirei."

Leminski, Paulo
quase ontem

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

janeiro

ri
rio
random
randómico. Foi randómico
Depois de mil duzentas e cinquenta e seis horas para lá chegar com esforço de socialização e boa música nativa e ao vivo à mistura no autocarro, eis que me espera pão de ló de qualidade, num sábado abafado de manhã. Pica toda - mas pica falsa. O meu guia particular mandou-nos pra Floresta da Tijuca, depois do jardim botânico, o parque lage e uma água de coco, para um banho gelado que me esquentou o espírito. Miradouro daqui miradouro dali, uma subida - bem  subir - chega ao topo da bonita, pedra. A solução pro vento era colar na pedra de papo para o ar e ver a lua a dar os primeiros olás, com o sol fugir da Barra. Foi silencioso. Pacífico até, para o que veio a seguir de fineza e pose Copacabana style. Bom, nada que uma queda no meio das rochas ipanemáticas de madrugada pra chegar perto do sol outra vez e um pastel matinal de carne não resolva.
Cama: olá amorzinho trezentos anos depois. Mas por pouco tempo, o resto do sono fez-se em Ipanema. E, desta vez, mal me levantei da areia. Rochas? a minha mão esquerda diz "tô fora"
Depois é tempo de clichés, bora ao corcovado levar com um enxame de turistas a acotovelarem-te e sacudirem porque precisam vitalmente do espaço que ocupas. Eu própria consegui umas boas selfies, e uma foto de  uma lagartixa. A ela os gringos não acotovelaram, sortuda a mandar paleta lá na ponta com espaço só para ela.
Seguiu-se o pão docinho com um quilómetro de fila que me fizeram, por um lado, ver o anoitecer lá de cima; por outro perder o samba da pedra do sal. Oh well.. LAPA LINDA depois de um taxista me deixar perto de um cemitério convencido de que o hostel onde estavam os meus coleguinhas era encima de uma padaria de esquina. putamerda, ele tava mesmo convencido de que era.
Um hostel encima de uma padaria de frente para o cemitério: será que dava?
O que dava era em vez de turista ser lagartixa.



                                                                                                         corcovado

                                                        jardim botânico

 
                                                                                                 parque das lages

                                                          pedra da gávea

                                                                                                          corcovado

                              pedra bonita: vista barra da tijuca

                                                         Ipanema sunrise






sábado, 21 de setembro de 2013

Trovojarda

   Abriram as comportas , danem-se temperamentos. Se é o sol que de chapa me tenta , em vão, acordar ou o flash de um relâmpago metade homem metade nada, nunca , na verdade, importou. E o importante é-o cada vez menos. São coisas que acontecem pelo meio dos aceleras , talvez pela origem duvidosa da origem em si. Se chove e nos molhamos , tudo se seca à terra e ao ouvido, se o sol nos fraqueja o espírito , há que o recompor na noite, entre vestidos a rodar e varandas a quebrar.
  Não vale questionar quando se sabe a verdade e as coisas se desenrolam em dois dedos de prosa , três movimentos rotativos acelerados, e um ar distraído no fim , ao som da disritmia suave em voz de mulher na casa de senhora: Noca
   Depois cheguei e, ao atirar-me de costas, fechei os olhos. Quase amanhecia. So não fechou o quase porque quase adormecia. Em vez disso so conseguia ser acordada , com chuva , noite e sol e barulho e assobios. Não há alterações a fazer que não sejam detalhes, como as pontas do meu cabelo que já estão espigadas e os horários de não ir de autocarro .

Agora vou dormir,
Hipnotizada , pra acabar de vez com esta disritmia
Curar-me, chegada de porre lá da boemia




domingo, 15 de setembro de 2013

Sequência de camatrilharões

Costa da Lagoa, 12h do dia, 8 associados, 3 garrafas de água, 7km, 2 sandes, 1 mergulho, 3 sequências de camarão, 1 barco














                                                                         tudo desta vida

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Teoria do Felipe I



"Ayahusca, professô."

O homem de chapéu no canto da sala pronuncia-se. Interrompe um vídeo youtubesco que diz que as estátuas se movimentam quando piscamos os olhos. Já tinha atirado: colombiano? argentino? hun. não. O homem de chapéu era todo ele brasileiro: Um brasileiro que foi em intercâmbio para Cuba e só voltou 10 anos depois, com sotaque distorcido, para regressar às aulas, como se nada tivesse mudado, e falar da bebida dos incas na cadeira do Felipe cabelo-grande.
Parece que eram dois gringos. Procederam ao ritual na Amazónia, logo de início, mal dispostos. "Escuro? Não vamos ficar no escuro no meio do nada! Tu tá doido?"
O nativo ignora, empenhado na sua tarefa, que logo conclui. Resultado: clientes insatisfeitos.
Viram horrores, foram dopados, foram extorquidos, foram enganados.
Diz o indígena: "A imagem está dentro, eu só abri a porta ao vosso espírito, que se projectou em frente aos vossos olhos."

Iquitos?




quinta-feira, 22 de agosto de 2013

assentamento

    Semana 1: a viver numa casa na árvore, com macacos no jardim, e sem internet. Qual BBC.

    Selvagem foi o frio, a chuva intensa, as caras desconhecidas, a falta de orientação, a nega inicial a 4 cadeiras em 5, a precipitação de mudar de casa, o pagar à polícia por uma carteira que não vou chegar a ver porque me vou embora antes de ficar pronta. Depois foi perder uma pasta com alguns docs e algum dinheiro num autocarro que não sabia qual era por já ter apanhado dois.
   
   Tudo bem, há um brasileiro descontraído que me vê aflita e diz-me pra relaxar, porque no Verão tudo melhora. Mas o verão ainda não chegou. A pasta, no entanto, apareceu intacta ao inicio da noite num autocarro a caminho da garagem. Ainda há esperança, e óptimos pastéis nos terminais.
 
   Temos é que ter calma, daquela calma nativa dos técnicos da internet e dos funcionários de caixa dos supermercados. Aqui há sempre tempo: exactamente o que preciso agora, para poder assimilar a aula que o prof dá descalço, para habituar o ouvido ao sertanejo, para travar amizade com o senhor dos correios. Deste lado já estou, posso respirar e a preparar emancipações.



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Fase 2

A maré tá agitada, o modo de absorção ganhou um ritmo demasiado acelerado. Foram muitos olás ocos, e outros bem calorosos. Foi um desligamento de chapão, uma descoberta espectacular, de ir e ficar pouco pra poder ir outra vez. foi ver imenso, cheirar, observar, mas calar pouco. Depois de andanças alucinantes, foi da roxa terra à fria água, de brasileiro a espanhol mal amanhado. Foi do avião com bolachas e suminho ao ônibus de motorista doido, com o vizinho de 10 horas mais malcheiroso de sempre a tossir-me para cima e a falar durante o sono. Em pouco, já ouvi os lá do interior a dobrar as palavras, já me trataram pelo tu mal conjugado e pelo cê abreviado, pela 'mina e a guria, pela moça e pela ineiz. Descobri a banana, o pastel, o mamão, a mandioca, a carne do gaúcho e a paella do catarino.
É um bom balanço, mas percebi que ainda agora começou. Teve de acalmar o ritmo, é preciso tratar dos assuntos sérios - seríssimos. De ser bem vinda pela última vez durante uns tempos , e arranjar um armário que não tenha alças para guardar a roupinha.