terça-feira, 13 de setembro de 2016

amor a rocos Cap. 1 O Atlas

É no calor das entranhas de um bicho seco, velho, pousado a custo no teto de África, que está fechado o segredo da paz. O peito apertava de leve, depois de um drift imprevisto na pista dos aviões da Casa mais Branca, como lhe chamaram num drift de velhas guerras.

Não falo francês. Podia, mas não entendi o que a vizinha dizia, menos que lia um livro sobre cuidados a ter com a pele e que em Errachidia fazia mais calor. e chuva.

No poço do aeroporto, salvé o rei e o seu omnipresente semblante, a ilustrar tabernas, tascos e a batizar aeroportos, encontrei um rincón. Quando dito em espanhol, soa mais real, a bicho do mato que quer encostar as costas numa parede aleatória de cidade grande feita de paredes.

Fiquei no rincón, e o guitarrista que relaxadamente existira na fila de embarque poisou no outro rincón, de cigarro na boca e três notas de boas vindas.
Injetou-me no cérebro as primeiras ondas sonoras que desceram ao peito final da minha pessoa dizendo vieste, que bom, em jeito de mirada lateral, fugidia, de quem vai seguir em frente alheio às companhias.

Daí, comecei a acelerar o passo. Comboio atrasado, duas de letra com um marroqui europeizado, emigrado en la france, la amour, que acabou por me dar asa sem saber num país do qual claramente não tinha orgulho. nem saudade.

Num estalar de dedos tudo se desconstruiu.. o medo, ansiedade, a ideia feita dos não calções não decotes, porue chegou Nawai, o furacão marroqui, que me queria como cargueiro internacional de vinho branco e vodka cara. Sim, fui ao pingo doce e levei um vinho de três euros. Tajin e obrigada

O tom dela, recém chegada de umas graaandes férias em Ibiza, RP do 4 Seasons Casablanca, com carro e maquilhagem própria, era de quem se propunha a desfazer a ideia de uma cultura sem que ela própria confiasse na sua posição. Acreditei naquele dia, no seguinte já não

Nawai vive com uma amiga, veste shorts com intenção de vestir, fuma Marlboro e ama o seu país. (só não ama os preços do álcool). Até há uma rua cheia de bares, as pessoas até saem à noite, (só não podemos descer aqui, tira fotos do carro) e eu até tenho um namorado em Rabat

Todas as amigas fumam, mirando do terraço os telhados áridos e as infinitas antenas parabólicas. No pasa nada.

Humidade e silêncio, e as notas do guitarrista no rincón ecoando numa estação de relógios cansados e que tocam no fundo do meu poço.

De manhã fui de shorts com intenção de ir. Conheci uma cientista irlandeso-maluca, comi um pacote de bolachas e as horas passavam asfixiando vidas entre as montanhas e a minha expectativa de chegar a um lugar de pó.

Contei algumas existências sem me mexer muito e quando cheguei a saber que chegara, esperava-me Redwan, de fita ao pescoço, buscando uma inás inás que eu conheci três semanas depois.




quinta-feira, 12 de março de 2015

falha ligeira

Queria estar agora no berço
De uma soma de primaveras
alma viva entre crateras
Em descomeço

Queria parecer agora adereço
De um tempo de estradas
as sensações cruzadas
Em descomeço






sábado, 13 de setembro de 2014

nuevos buenos raros aires

Um interstício entre mudanças

Nada mais que espaços onde me sento, que vazios que ocupo, em preenchimentos de novos bons e raros ares.
Mientras tanto, em mais um espaço, eu sacudi outro colchão, na calada de um amanhecer iluminado em finais de Julho. Sem os lençóis se darem conta, com resquícios materiais a ficarem de fora em cantos por preencher da 51 da Lauro Linhares, com a Mi apanhamos a Vi , a Sophie, e a I chegou aqui - Nova caixa com varanda:

Calle Chile 1764 - 2º dos fundos, 1º dos florentinos
Montserrat, Buenos Aires, terra de maxikioskos
Capital Federal
Argentina, Che.

Pois não o escrevi, muito menos o cheirei, tão pouco o estudei.
Mas sonhei, sem a saber lúcida.
E há um segundo me dizem: "Atrae pero tambien enoja. Hay que vivir muy alegre para soportarla"
Numa relação de amor ódio, Buenos Aires abre, estende, mas não deixa tirar.
Buenos Aires mostra, ilumina, vive, partilha, mas ninguém leva para casa.
Ditado de economista: "Não há almoços grátis"

Podem haver menus de 22 pesos com 3 medialunas y um cafe con leche, podem existir promos de Una grand muzza y 2 fainá + gaseosa em cada esquina, mas grátis? não

porque Buenos Aires não me dá: faz-me procurar, encontrar, enroscar, admirar e suspirar, mas dá-me apenas o treino e a astúcia da busca do seu não dar.

Nem tudo é democrático, tenho de ponderar o que lhe ofereço eu











domingo, 4 de maio de 2014

ô mã-nhê

Avé, Maria Manuela, aos longos minutos de skype e à falta de rede na favela do Giba.
Abençoados os ossos do teu ofício, que me carregam a imaturidade.

Perdemos a conta às ondas que nos separam, e às angústias que provavelmente te assolam em dias de chuva. Hoje o céu tá limpo, eu vou arrumar outro colchão e levar a tua fotografia para outra parede.
Mais uma contagem que desisti de fazer.
Perdemos conta aos dias de ir à piscina, às linhas daquelas saias horríveis, aos filmes, e às vezes que perdi o padeiro. Já não sei quantos ovos foram em bolos de chocolate, ou quantos daqueles balões das caixas do feira nova me compraste.
Ainda bem que tu és só uma.
Tu , o teu metro e meio de amor, e os teus 30 anos de idade mental

sinto-te






sábado, 3 de maio de 2014

margens

..vou assim
Sem dar tempo ao pó
Semicerrando as pálpebras
por não me caberem as margens do rio
na alma

Sei mais do que sabia ontem
e menos do que saberei amanhã
porque é que era tão bom
só estar




terça-feira, 1 de abril de 2014

disneyland

três tomates
são só quatro portas
duas mangas
seriam três corações
quatro maçãs
uma questão de timing
um abacaxi
fico ou não aqui
dá dois e trinta
numa carteira em forma de limão
num relógio em contra-mão


segunda-feira, 17 de março de 2014

estou em casa?

O João XXI aterrou em São Paulo num pôr de sol pôr de avião.
A torradeira da Gol chegou à Ilha da Magia já de noite, para me largar em seco numa ressaca de chuva. Só reconheci a estrada já a apontar na fila da Osni Ortiga, como se entrasse numa casa pela porta dos fundos para que me perdoasse a ausência. Caí em mais um colchão, numa reunião de caras familiares que me fez sentir o mesmo baixar de volume que senti em Agosto do ano passado. Estranho
Entrei aqui como se fosse abalar de novo no dia seguinte, com a certeza que em algum momento eu voltaria a sair da minha zona de conforto sem saber muito bem porquê, tal como tão dedicadamente tenho feito nos últimos tempos.
Mas só cheguei a Floripa na espuma de uma onda da Mole. Não foi a primeira nem a segunda, foi uma ali no meio, com o sal na medida certa, que me fez sentir como me senti no último dia de Chuvianópolis de 2013. Igualmente estranho
Numa reviravolta, de repente tornou-se este um começo a sério, grande, que me faz ponderar, hesitar, calcular, e deitar no mesmo colchão por 11 noites.
Eu, que sou boss em decisões precipitadas